Saturday, February 6, 2016

Noticias da Nossa Historiadora, Ângela Sofia Benoliel Coutinho



JUDEUS E CABO-VERDIANOS DE ORIGEM JUDIA MARROQUINA E DE GIBRALTAR NA IMPRENSA CABO-VERDIANA DO SÉCULO XX  

            Pela análise da imprensa periódica do século XX, ainda a decorrer, é possível constatar a progressiva integração na sociedade cabo-verdiana das famílias de origem marroquina e de Gibraltar que se fixaram no arquipélago. Desde logo, pela maior diversidade da actividade económica, e, na 2ª geração, já de portugueses nascidos em Cabo Verde, pela assunção de diversos cargos em comissões, juntas, e organismos diversos, cujo real peso na sociedade das ilhas importará apreender. Alguns chegaram a assumir o cargo de administradores de concelho e Bento Levy foi o primeiro a integrar o Conselho de Governo, durante a Iª República. A nível da função pública colonial, vedada aos estrangeiros, na 2ª geração, dos nascidos em Cabo Verde, há poucos casos, tratando-se sobretudo de professores primários e funcionários dos Serviços Aduaneiros e dos Correios. 
 
            O “Boletim Oficial da Província de Cabo Verde,” cuja consulta vai na década de 30 do século XX, é particularmente rico em dados, que, dada a sua profusão, importará organizar numa base de dados, de molde a facilitar a sua consulta e análise. Foram identificados 86 indivíduos, cujos nomes seguem na lista abaixo, e elementos relativos à vida económica, e a diversos outros aspectos.

ASSIM, FORAM INDENTIFICADOS DADOS SOBRE: 


José Benholiel, Bento Levy, Benjamim Alves, Marcos Cagy, David Ben’Oliel, Domingos Seruya, J.A. Levy, Veríssimo Wahnon, Izaac Athias, Moyses Levy, Leão Benroz, Isaac Pinto, Leopoldina Hidalgo Carrera Athias, Salomão Ben David, Abraham Julião Brigham, Isaac Wahnon, Jacob Wahnon, Isaac Augusto Ezaguy, José Monteiro Levy, Jayme Monteiro Levy, Álvaro Monteiro Levy, Salvador Levy, D. Justa Azulay Silva, Theodorico Seruya, Theodoro d’Oliveira Almada (?), Moses Zagury, Fernando Wahnon, Isaac Ben’Oliel, Júlio Bento d’Oliveira, D. Rachel Levy, Raphael Moysés de Oliveira, Rodolpho Benroz, Raphael Anahory, Salomão A. Ben’Oliel, Augusto Ben David, Maria da Conceição Pinto Wahnon, Júlia Pereira da Silva Azulay, Maria Benholiel Lopes da Silva, Carlos Bento d’Oliveira, José Julião Brigham, Salomão Joseph Abithbol, Elysa Levy Bentubo Santos, David Jacob Cohen, Manoel Azulay, Salomão Tavares Benchimol, Daniel Wahnon, Naturino de Mello Alves, Leão Benholiel, Wenceslau Ramos Levy, Octavino de Mello Alves, Daniel D. Cohen, Jayme Wahnon, José Anahory, Maria Faria Anahory, Mery Benholiel Levy, Simy Benholiel de Carvalho, Rachel Benholiel, Simão Benholiel, Maria do Carmo Mosso Benholiel, Júlio Benahim Lima, Marcos Julião Brigham, Camila Wahnon Brigham, Ernesto Lima Wahnon, Emília Benchimol Lopes, Fortunato Monteiro Levy, Afonso Benrós, Filomena Pereira Azulay, Mário Avelino Melo Alves, Adelaide Benrós Sousa, António Benrós Sousa, Afonso Benrós Sousa, Artur Levy Gomes, Rafael Ramos Levy, Maria da Piedade Leite Santos Silva Wahnon, Clarisse Wahnon, Jorge Wahnon Jr., Emílio Firmino Benrós, Belarmino Firmino Benrós, Fulgêncio Anahory Silva, Jacob Wahnon Jr., António Levy Bentubo, Dêa Ben David, Alexandre Benoliel de Carvalho, José Andrade Brigham, Maria da Luz Benahim Leite, Elizeu David Cohen.





               Na imprensa privada cabo-verdiana do século XX, encontram-se também muitos dados sobre diversos membros das famílias Levy, Alves, Wahnon, Athias, Benoliel, Benahim, Esaguy, Benrós, Anahory, Brigham, Levy Bentubo, Cohen, Serruya, Abitbol, Azagury, Ben David, Azulay e Pinto. No século XX, radicaram-se algumas famílias judias de origem asquenaze, da Europa de Leste, sendo as mais conhecidas a Kahn e Schofield. Contudo, terá havido outras famílias a viver durante algum tempo no arquipélago durante a Segunda Guerra Mundial. Estas famílias conviviam com as de origem marroquina e de Gibraltar.


            Na imprensa privada havia normalmente uma coluna social, onde eram noticiados os nascimentos, aniversários, casamentos, pedidos de casamento, doenças, falecimentos, festas várias, incluindo bailes de Carnaval, “reuniões elegantes,” banquetes, bailes de fim d’ano e as diversas viagens que os membros destas famílias faziam entre as ilhas ou para Portugal, atestando assim a sua ascenção à elite socio-económica de Cabo Verde. Nas 2ªs e 3ªs gerações, pela análise dos apelidos compostos, vê-se a associação por casamento com famílias de origem portuguesa, como por exemplo, Monteiro Levy, Barbosa Levy, Brigham Neves, Brigham Gomes, Benoliel Lopes da Silva, Benoliel de Carvalho, Anahory Silva, Cohen Leite, Cohen Lopes da Silva, Benahim Leite e outras.

            Há também dados de outra ordem, nomeadamente, os resultados escolares das crianças e jovens destas famílias, as nomeações para cargos públicos, os cargos assumidos na sociedade civil, tanto nas Associações Comerciais e Agrícolas do arquipélago, como em associações recreativas e desportivas ou em comissões várias, anúncios de palestras ou ainda, subscrições de cartas dirigidas às autoridades e donativos a pobres ou em consequência de catástrofes. Há também anúncios das casas comerciais e referências às actividades económicas e litígios. Há diversas referências à exportação de café, mas também a empresas de navegação, sendo que as casas comerciais vendiam uma grande diversidade de produtos.

            Desde a geração dos filhos, alguns ascendem ao cargo de administradores de concelho, ainda que por vezes substitutos, outros a presidentes de câmara municipal e até a vogais do Conselho do Governo da então província ultramarina. Nota-se que entre os netos, alguns têm acesso ao ensino superior na então metrópole, e Bento Benoliel Levy é eleito deputado por Cabo Verde na Assembleia da República Portuguesa. 

            Nos jornais “O Arquipélago” e “Cabo Verde, Boletim de Propaganda e Informação,” há dezenas de artigos de autoria de Bento Benoliel Levy e de Orlando Barbosa Levy, mas também poemas de Terêncio Anahory Silva e alguns artigos de Francisco Benoliel Lopes da Silva, Aníbal Cohen Lopes da Silva e Júlio Bento de Oliveira (da família Abitbol).   

- Ângela Sofia Benoliel Coutinho, 6 de Fevereiro 2016


Sunday, November 29, 2015

CVJHP HISTORIAN ANGELA SOFIA BENOLIEL COUTINHO REFLECTS ON GIBRALTAR & MOROCCO


Nota de Carol/ Note from Carol:


Ângela Sofia Benoliel Coutinho, Cape Verdean historian who resides in Portugal, is under contract to CVJHP Inc. to pursue archival and oral research on the presence and legacy of the Jews of Cape Verde -- those who immigrated to Cape Verde in the XIX century, mostly from Morocco and Gibraltar, when Cape Verde was a Portuguese colony. As you know from previous posts, she has been working in the archives in Portugal and Cape Verde, but in mid-2015, CVJHP sent her to Morocco and Gibraltar, the birthplaces of many of the original immigrants, to pursue research in archives and libraries, as well as to meet with academics and archivists. I accompanied her on both trips to facilitate contacts and expedite our work, which, oxala, will culminate in a book in the not-too-distant future. Here, in Portuguese, are her personal reflections:

Ligação entre Gibraltar/Marrocos e Cabo Verde

Aquando da estadia em Gibraltar, foi muito boa a recepção por parte dos membros da Comunidade, e foi possível obter dados sobre as famílias oriundas do estreito, tanto nos registos da Comunidade Judaica como nos National Archives, que contudo, terão muito mais documentação disponível para consulta a partir do Verão de 2016. Foi também possível obter bibliografia especializada sobre a comunidade judaica de Gibraltar, à qual ainda não tínhamos tido acesso. Através da análise destes novos elementos, revelou-se um relacionamento intenso e multi-secular entre Gibraltar e Portugal, sobretudo com Lisboa e com o Algarve. Assim, algumas das famílias que estamos a estudar, tendo ligações a Gibraltar, instalaram-se primeiro em Lisboa, e só depois em Cabo Verde. Descobrimos também que em Gibraltar existiam relações comerciais particularmente intensas com Tétuan, em Marrocos, e com Alger e Oran, o que poderá explicar a presença em Cabo Verde de indivíduos nascidos nestas duas cidades argelinas.  

Dra. Benoliel Coutinho w/Jewish archivist, Mesod Belilo, in Gibraltar
Em Marrocos, Rabat e Casablanca, foi surpreendente e profundamente gratificante, o interesse demonstrado por especialistas, artistas, jornalistas, dirigentes da Comunidade Judaica, assim como o acolhimento por parte do Sr. Ministre Chargé des Marocains Résidant à l’Étranger et des Affaires de la Migration. Foram especialmente tocantes a atenção e a disponibilidade por parte de M. André Azoulay, Conselheiro de S. Magestade, o rei Mohammed VI. A extensa bibliografia existente sobre a História e a Cultura dos Judeus Marroquinos, pela sua qualidade e diversidade, irá contribuir muito para enriquecer o nosso estudo. Conversando com a directora do Museu do Judaísmo em Casablanca, descobrimos que as famílias judias marroquinas que se instalaram em Cabo Verde no século XIX têm diversas proveniências históricas: se a maioria tem raízes na Península Ibérica, tendo chegado a Marrocos a partir do século XV, outras são de origem berbere, com presença milenar no Norte de África, e outras, ainda, são oriundas do Médio Oriente, com uma presença multi-secular em Marrocos.    
H.E. Andre Azoulay & Dra. Benoliel Coutinho, Palais Royal, Rabat
Por fim, numa nota pessoal, direi que foi emocionante para mim pisar pela primeira vez a cidade de Rabat, de onde são oriundos os meus antepassados.  

--Ângela Sofia Benoliel Coutinho, 27 de Setembro de 2015

This post was also published in English on the World Monuments Fund site (See link below). CVJHP thanks the World Monuments Fund for the grant that underwrites costs of Ângela's archival research

https://www.wmf.org/blog/morocco-and-gibraltar-keys-understanding-cape-verde%E2%80%99s-jewish-heritage

Sunday, November 22, 2015

CMRG DESIGNATES JEWISH CEMETERIES AS "MUNICIPAL CULTURAL PATRIMONY"


The Jewish cemeteries in Penha de França and Ponta do Sol have been officially classified as Municipal Cultural Patrimony or  "Património Cultural Municipal" by the Camara Municipal de Ribeira Grande (CMRG) -- City Hall in Ribeira Grande, island of Santo Antao.

I received the following message from Francisco Dias, Vereador da CMRG in late August 2015. 

"Ontem foi um dia muito especial para os Cemitérios dos Judeus. Foi aprovado por unanimidade por todos os deputados municipais, a elevação dos cemitérios dos Judeus de Ribeira Grande (Ponta do Sol e Penha de França) a património cultural municipal. O processo seguirá brevemente para o governo requerendo a elevação a categoria de património cultural nacional."
----Francisco Dias, Vereador da CMRG - Santo Antão, 29 de Agosto, 2015
  

Engineer Orlando Delgado, President (Mayor) of CMRG, told me in late July 2015, when I was in Ribeira Grande on a site visit to evaluate the status of restoration of the two cemeteries, that he would press for this designation. CVJHP Inc. salutes the CMRG for fulfilling its commitment. 
Above is the refurbished Penha de Franca cemetery in Ribeira Grande. Finishing touches such as painting and signage will be completed in the coming months by early 2016.
The Jewish cemeteries are in the process of being restored and preserved with financing and advice from CVJHP Inc. and by a capable technical team from the CMRG. Their recent designation as "municipal cultural patrimony" is an important first step toward their eventual designation as cultural patrimony by the central government. Why is this so critical? It means that the people of Ribeira Grande value and honor the contributions and legacy of the many Sephardic Jews who once lived and prospered on the island. The designation legally protects the cemeteries from attempts by developers, the state or individuals to destroy, alter or deface the cemeteries. Most of all, it reflects the view by the CMRG and the citizens therein that the cemeteries are an inextricable part of their history and identity, even if no practicing Jews remain on the island today. Thanks to the CMRG, the memory of the many Jewish families: The Benros, the Brigham, the Cohens, the Pinto, the Wahnon and many more .... will live on through the poignant cemeteries and the many descendants in Cape Verde and abroad.  It will also help to promote cultural tourism in the island of Santo Antao. CVJHP Inc. fervently hopes that the other municipalities with Jewish cemeteries, namely Praia and Boa Vista, will emulate the measure taken by CMRG and vote to designate their respective cemeteries as "património cultural municipal." Such a move will greatly benefit the economic and cultural development of the entire country. 
Antonio Mota and Francisco Dias, Terrace of Ponta do Sol Cemetery, RG


Francisco Dias, Antonio Mota Ponta do Sol, RG